Sexta-feira (10) de julho de 2026
O Supremo Tribunal Federal (STF) determinou a indisponibilidade de R$ 119,2 milhões em bens e ativos ligados ao presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, por suspeitas de indicação irregular de emendas parlamentares. O bloqueio atinge a pessoa física de Valdemar, de acordo com a decisão assinada nesta sexta-feira (10/7).
De acordo com a investigação, Valdemar, apesar de não ter mandato eletivo, tinha ingerência direta, ou seja, poder de decisão, para destinar recursos públicos reservados a parlamentares de acordo com seus interesses, "em sintomas inequívocos do cometimento dos crimes de peculato".
Para mascarar a suposta fraude, documentos e planilhas eram supostamente forjados e contavam com nomes de deputados federais como solicitantes de emendas que eram decididas por Valdemar. O esquema de apropriação indevida de cifras parlamentares "possivelmente contava com o apoio e a liberalidade política, ainda que através de omissão, de outros parlamentares", citou a autoridade policial.
"Basicamente, Valdemar Costa Neto contava com autonomia para direcionar recursos de emendas (de comissão, proeminentemente) conforme sua cota pessoal e particular, atribuída a partir de sua condição de presidente da sigla", completou.
Foram identificadas adulterações em pelo menos 21 emendas parlamentares que somam R$ 119 milhões, valor tornado indisponível de Valdemar. Os recursos chegaram a ser empenhados, ou seja, reservados no Orçamento da União, ou foram efetivamente pagos ao destinatário final.
Servidores são identificados em esquema
Valdemar contava com o apoio de três servidores da Câmara para operar o esquema, segundo a investigação: Nara Benedetti Nicolau Brum, Garigham Amarante Pinto e Mariângela Fialek -esta última foi alvo de mandado de busca e apreensão em dezembro de 2025 em outra operação sobre irregularidades na destinação de verbas públicas. Ela era ligada à liderança do PP.
"A extração e análise de dados do aparelho de Mariângela Fialek indicam a existência de um arranjo decisório paralelo para a destinação de verbas públicas, no qual Valdemar Costa Neto, presidente do PL, mas desprovido de mandato, aparece como vetor de definição e remanejamento de emendas", destacou o documento.
Já Garigham, que ocupou cargo na liderança do PL na Câmara, é apontado como o "interlocutor mais direto" de Valdemar " no sentido das indicações de emendas, atuando na mediação política direta".
"Dispõe de registros históricos como pessoa de estreita confiança de Valdemar Costa Neto. Aparece nos diálogos como verdadeiro emissário do presidente do partido. Sua comunicação com Mariângela Fialek indica que ele não apenas transmite recados e demandas, mas participa ativamente da negociação dos valores globais das indicações, das áreas prioritárias e do momento oportuno para sua formalização", disseram os investigadores sobre Garigham.
Nara Benedetti, também lotada na liderança do PL, é citada como "agente funcional central na engrenagem de tratamento e encaminhamento de emendas parlamentares diretamente direcionadas a Valdemar Costa Neto".
"A partir dos diálogos analisados, constata-se que ela (Nara) atua como agente responsável por viabilizar tecnicamente as destinações de recursos, mantendo interlocução constante com Mariângela Fialek. É Nara quem encaminha planilhas, esclarece limites regimentais, comunica obstáculos administrativos e solicita ajustes nos destinos e nas áreas temáticas das emendas. Sua atuação revela conhecimento aprofundado dos fluxos internos, dos sistemas de cadastramento e das balizas formais impostas à tramitação das indicações", apontou a decisão.
Troca de mensagens citam Valdemar
A autoridade de investigação também identificou trocas de mensagens entre os citados. Ao tratar sobre planilhas de emendas, há uma citação de Nara a Fialek ao cadastramento de supostas indicações de Valdemar. Em 25 de agosto de 2025, Garigham teria comunicado Fialek sobre uma reunião com o presidente do PL e escrito em seguida: "Acho que ele vai jogar no turismo os 24. Pode ser?”, em suposta referência à indicação de verba para o Ministério do Turismo.
"Em resposta, Mariângela Fialek pede calma ao servidor, que ela passaria “quanto”. Informa, ainda, que já teria resolvido alguns e que até o final do dia passaria para Garigham. Em resposta, o servidor fala: 'Pode colocar o máximo que der. Ele tá querendo Turismos'", informou.
No dia seguinte, Garigham teria cobrado se Fialek "fechou o valor do Pres Valdemar", enquanto as mensagens seguintes fazem referência a "24 milhões" no "turismo", com o nome do município que receberia a emenda. "Desse modo, é possível que tal lista esteja relacionada aos R$ 24 milhões mencionados por Garigham, que supostamente seriam indicações de Valdemar Costa Neto", concluíram os investigadores.
Em 28 de agosto, Nara Benedetti teria enviado a Fialek uma planilha de alteração, e Fialek respondeu que já tinha o documento. "Não, o Valdemar pediu pra trocar algumas das indicações que ele fez ontem em turismo, porque os municípios não iriam conseguir executar”, teria respondido Benedetti.
São investigados os crimes de peculato e associação criminosa. Além do bloqueio de bens de Valdemar, Dino determinou a suspensão de todas as despesas das emendas suspeitas, inclusive as que estão em fase de pagamento, e a intimação da Câmara dos Deputados, da Advocacia Geral da União (AGU) e da Controladoria-Geral da União (CGU) para o cumprimento das medidas. O ministro também determinou que a Câmara informe, em até 10 dias, todos os documentos de tramitação interna das emendas citadas.
A reportagem fez contato com o PL e diretamente com Valdemar Costa Neto sobre a decisão de Dino e aguarda retorno. O dirigente partidário foi deputado federal e assumiu seis mandatos, mas renunciou em dezembro de 2013 após receber ordem de prisão pelo STF por condenação no Mensalão. Desde então, não ocupou outro cargo público.
Garigham Amarante afirmou à equipe de O TEMPO Brasília que é "técnico" e não teria o que comentar sobre a decisão. A reportagem não localizou Mariângela Fialek e Nara Benedetti.
