Sempre que surge uma oportunidade de atingir Lula e seu entorno político, as diferenças desaparecem
Sexta-feira (31) de julho de 2026
Que inveja dos órgãos de propaganda. A chamada mídia hegemônica conseguiu um feito raro: transformar três jornais diferentes em um só.
Nesta sexta-feira, os leitores da “Folha de S.Paulo”, de seu suposto concorrente “O Estado de S.Paulo” e do matutino carioca “O Globo” encontraram, sem tirar nem pôr, exatamente a mesma manchete estampada nas primeiras páginas: “Mendonça autoriza PF a investigar Lulinha por tráfico de influência”.
Não é parecida. Não é semelhante. É rigorosamente a mesma. Ipsis literis. Palavra por palavra. Como se um único editor tivesse fechado as três capas ou como se as três redações trabalhassem em regime de franquia editorial.
A coincidência é tão perfeita que convida a uma pergunta inevitável: ainda existem três linhas editoriais independentes ou apenas três marcas comerciais reproduzindo um pensamento único? Que exemplar tão reluzente da variedade de opiniões no capitalismo!
Não seria a primeira vez. Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo e O Globo já caminharam lado a lado em momentos decisivos da história política brasileira. Apoiaram o golpe de abril de 1964, compartilharam um enquadramento muito semelhante durante a cobertura do chamado mensalão e, anos depois, marcharam praticamente em uníssono na narrativa construída em torno da Operação Lava Jato. Agora, mais uma vez, a convergência salta aos olhos: a mesma manchete, com as mesmas palavras, publicada simultaneamente pelos três jornais.
Quando o assunto é Lula e sua família, desaparecem as diferenças de estilo, de linguagem e de hierarquia das notícias. A concorrência parece dar lugar à coordenação. O pluralismo, tão celebrado nos editoriais, dissolve-se numa unanimidade quase coreografada.
Também chama a atenção que a manchete decorra de uma decisão do ministro André Mendonça, indicado ao Supremo Tribunal Federal por Jair Bolsonaro e identificado desde sua nomeação como tarefeiro do campo político bolsonarista. Em vez de oferecer ao leitor enfoques distintos, contextualização ou questionamentos compatíveis com a diversidade que afirmam representar, Folha, Estadão e O Globo preferiram desfilar em passo sincronizado.
A cena lembra uma redação única, distribuída em três endereços. O leitor compra jornais diferentes, mas recebe o mesmo enquadramento, as mesmas palavras e a mesma mensagem. A pluralidade fica restrita aos logotipos. Um demiurgo, un grande irmão, retifica os enfoques.
Talvez seja apenas a mais extraordinária coincidência da história recente do jornalismo brasileiro. Ou talvez seja apenas um velho cacoete. Sempre que surge uma oportunidade de atingir Lula e seu entorno político, as diferenças desaparecem, as manchetes convergem e o coro se forma com admirável disciplina.
No fim, o verdadeiro fato jornalístico talvez nem seja a investigação anunciada. É a espantosa uniformidade de três veículos que insistem em se apresentar como concorrentes, mas que, em dias decisivos, parecem publicar não apenas a mesma manchete, mas também a mesma visão de mundo, sepultando os ideais de independência do jornalismo.
Autor: Mario Vitor Santos
Mario Vitor Santos é jornalista há 42 anos, tendo sido diretor da sucursal de Brasília da Folha durante a Constituinte de 1988. Em seguida, comandou a Redação da Folha na sede do jornal em São Paulo, antes de transferir-se para ser fellow do programa Knight para jornalistas profissionais da Universidade Stanford. De volta, foi ombudsman da Folha em dois mandatos 91-93 e 97. Foi também ombudsman do iG, o primeiro nesta função da internet brasileira. Dirigiu a Casa do Saber de 2003 a 2021. É mestre em drama antigo e sociedade pela universidade inglesa de Exeter e doutor em letras clássicas pela Universidade de São Paulo.
