Sábado (19) de julho de 2026
O crescimento acelerado das montadoras chinesas no Brasil desencadeou uma disputa por preços no setor automotivo. Fabricantes tradicionais passaram a oferecer descontos mais agressivos e bônus na troca de veículos usados para preservar participação no mercado, movimento que também reduziu os preços dos seminovos e ampliou as oportunidades para os consumidores. As informações são de reportagem do jornal O Globo.
Dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) mostram que o Brasil praticamente dobrou a importação de automóveis da China no primeiro semestre deste ano, passando de 71 mil para 140,8 mil emplacamentos em comparação com o mesmo período de 2025. Ao mesmo tempo, montadoras chinesas instaladas no país, como BYD e GWM, também registraram forte expansão nas vendas.
A combinação de preços competitivos, maior oferta de modelos híbridos e elétricos e elevado nível de tecnologia levou as fabricantes tradicionais a reagirem com cortes de preços e campanhas promocionais, intensificando a concorrência em todo o mercado.
Fabricantes ampliam incentivos para compradores
Entre as estratégias adotadas está a ampliação dos bônus para troca de veículos usados por modelos novos. A Toyota reduziu o preço do Yaris Cross XR e passou a oferecer bônus de até R$ 40 mil em determinadas negociações.
Em nota, a empresa informou que decidiu oferecer “condições competitivas” diante da “entrada de novos competidores, somada às transformações relacionadas à eletrificação, conectividade e digitalização, além de novas expectativas em relação à mobilidade”.
Outras montadoras também promoveram reduções de preços e campanhas promocionais. A Volkswagen lançou um feirão nacional, enquanto a Fiat reduziu significativamente o valor do Fastback Impetus Turbo, afirmando que permanece “sempre atenta às variações no cenário” para definir sua política comercial.
Avanço das chinesas preocupa a indústria
Embora evitem citar diretamente as fabricantes chinesas, as montadoras representadas pela Anfavea defendem medidas de proteção à indústria nacional diante do aumento das importações e da expansão da produção local dessas empresas.
A BYD encerrou o primeiro semestre com alta de 107% nos emplacamentos, alcançando 99.029 unidades, enquanto a GWM mais que dobrou suas vendas em relação ao mesmo período do ano anterior.
Segundo Milad Neto, sócio e diretor-executivo da K.Lume Consultoria Automobilística, os veículos chineses mudaram o padrão de concorrência no país.
“Hoje você tem um veículo chinês de maior porte competindo com um modelo menor fabricado no Brasil. Esses carros chegam mostrando suas qualidades e dizendo ao mercado: ‘Eu também sou uma boa opção, tenho um preço extremamente competitivo. Cabe a você decidir se quer experimentar esse carro ou não’.”
Queda dos preços alcança os seminovos
A redução dos preços dos veículos novos provocou um efeito imediato no mercado de usados e seminovos. Com consumidores migrando para modelos zero-quilômetro mais baratos, revendedoras passaram a oferecer descontos para reduzir estoques.
O movimento também ocorre porque o valor dos usados acompanha naturalmente o comportamento dos veículos novos. Além disso, os eletrificados chineses passaram a disputar diretamente espaço com modelos nacionais de categorias semelhantes.
Na avaliação de revendedores, o mercado enfrenta dificuldades provocadas pela combinação entre juros elevados, maior concorrência e mudança no perfil da demanda, especialmente entre consumidores interessados em SUVs e veículos eletrificados.
Mercado recebe estímulo do governo
Na semana passada, o governo federal ampliou o programa Move Brasil para incluir seminovos elétricos e híbridos flex produzidos a partir de 2024, com valor de até R$ 150 mil.
Especialistas avaliam que a medida pode facilitar o acesso ao crédito e contribuir para a retomada das vendas, especialmente em um cenário de financiamento mais caro.
Enquanto isso, quem pretende comprar um automóvel encontra um ambiente favorável, com promoções e maior poder de negociação. Já os proprietários que desejam vender seus veículos enfrentam avaliações mais baixas, reflexo da guerra de preços instalada no setor.
Disputa também envolve política industrial
O crescimento das montadoras chinesas faz parte de um movimento global impulsionado pela forte capacidade produtiva da China no segmento de veículos eletrificados. Dados do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC) mostram que híbridos e elétricos já representam parcela crescente das importações brasileiras provenientes do país asiático.
No Brasil, a disputa também alcança a política industrial. Recentemente, o governo autorizou cotas adicionais de importação com alíquota zero para veículos desmontados e semidesmontados destinados à montagem local, decisão criticada pela Anfavea e considerada uma vitória da BYD.
Apesar das preocupações da indústria nacional, a entidade revisou para cima sua previsão de vendas para este ano e passou a projetar que o mercado brasileiro ultrapassará a marca de 3 milhões de veículos comercializados pela primeira vez desde 2014.
