TARCÍSIO CREDENCIOU BANCO DO PASTOR EDIR MACEDO, DONO DA IGREJA UNIVERSAL, PARA OFERECER CRÉDITOS CONSIGNADOS A POLICIAIS MILITARES

Autorização ao Banco Digimais para operar empréstimo consignado serviu para aliviar caixa da instituição investigada por rombo milionário e fraudes contábeis
Quarta-feira, (24) de junho de 2026
A autorização concedida em 2025 pelo governo de São Paulo, chefiado por Tarcísio de Freitas (Republicanos), para que o Banco Digimais operasse empréstimos consignados com desconto em folha de pagamento de policiais militares teve o efeito prático de uma operação de salvamento.

Ao abrir para a instituição um mercado potencial de mais de 80 mil agentes com contracheque estável, o Executivo estadual forneceu ao banco em crise financeira uma fonte relevante de liquidez de baixo risco exatamente no momento em que ele mais precisava.

A Polícia Federal deflagrou nesta terça-feira (23) a Operação Miragem contra o Digimais, controlado pelo bispo Edir Macedo. A ação cumpriu nove mandados de busca e apreensão e determinou o bloqueio de até R$ 670 milhões em bens e valores. Segundo a PF, a investigação apura um esquema de manipulação contábil para ocultar a real situação de insolvência da instituição.

O credenciamento e o contexto financeiro
Em agosto de 2025, o governo estadual firmou o Contrato nº CIAF 011/2025 com o Digimais para operações de consignado na folha da Polícia Militar do Estado de São Paulo (PMESP), com vigência até fevereiro de 2030. Um mês antes, a Diretoria de Folha de Pagamento (DFP) publicou o Comunicado DFP nº 006/2025, liberando o código de consignação. O ato foi publicado no Diário Oficial do Estado.

Na época do credenciamento, o banco já enfrentava grave deterioração financeira. Em setembro de 2025, o prejuízo acumulado era de cerca de R$ 250 milhões. O rombo chegou a quase R$ 500 milhões em fevereiro de 2026. O consignado, por sua natureza (desconto automático em folha), é uma das operações de menor risco para as instituições financeiras, funcionando como fonte estável de captação e liquidez.

O governo trata o credenciamento como um ato administrativo técnico, aberto a qualquer instituição que cumpra os requisitos formais. No entanto, o timing da autorização gerou forte crítica de analistas do mercado e levanta suspeitas.

Em maio de 2026, após as primeiras reportagens sobre a autorização, o deputado estadual Maurici (PT) protocolou representação no Ministério Público de São Paulo questionando as autorizações concedidas pelo governo Tarcísio e pela Prefeitura de São Paulo. A Promotoria do Patrimônio Público arquivou o pedido ainda naquele mês, por entender que se tratava de mera suspeita. O caso só voltou ao centro do debate com a deflagração da Operação Miragem pela Polícia Federal, em 23 de junho.

O que disse a Polícia Federal
A PF foi direta ao descrever o esquema investigado. Segundo a corporação, o Digimais adotou “práticas análogas” às do Banco Master. A investigação aponta que os responsáveis teriam manipulado demonstrativos contábeis e registros regulatórios “para apresentar uma situação financeira mais favorável do que a real” e “maquiar a real situação de insolvência” da instituição.

A PF também afirma que o banco teria instrumentalizado o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) como mecanismo de cobertura, replicando o modelo fraudulento usado pelo Master. A apuração teve início a partir de relatórios do Banco Central que identificaram irregularidades na contabilidade.

Semelhanças com o Banco Master e risco ao FGC
É inevitável a comparação com o Banco Master, que recebeu autorizações de consignado em larga escala no Rio de Janeiro (gestão Cláudio Castro) e no Distrito Federal (gestão Ibaneis Rocha) enquanto estava em dificuldades. A Folha de S.Paulo publicou hoje um ponto a ponto destacando as semelhanças entre os dois casos: ambos usaram reciclagem de carteiras de crédito problemáticas em fundos próprios para inflar artificialmente os ativos e aparentar solvência.

Especialistas alertam que uma eventual liquidação do Digimais pode gerar impacto relevante no FGC. O desembolso do fundo com garantias a depositantes poderia subir significativamente em 2026, com valores estimados, em cenários mais pessimistas, que podem chegar a dezenas de bilhões de reais.

Ligações com a Igreja Universal
Apesar das ligações entre o Republicanos, partido do Tarcísio, e a Igreja Universal, não há, contudo, até o momento, qualquer indício de repasses financeiros, propinas ou favorecimento direto a agentes do governo paulista. Uma linha de investigação que deverá ser explorada. A Operação Miragem está concentrada nas fraudes contábeis internas do banco.

Os contratos já firmados entre servidores e o Digimais permanecem em vigor. Não há decisão judicial determinando a suspensão geral dos descontos. Novas operações, no entanto, tendem a ser impactadas pelo andamento da investigação.


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