Domingo, (08) de fevereiro de 2026
A falta de acesso à água potável ainda é uma realidade para milhões de brasileiros, especialmente nas áreas rurais do Nordeste. Diante desse desafio histórico, a biotecnologista baiana Anna Luísa Beserra desenvolveu uma solução inovadora, sustentável e de baixo custo: o Aqualuz, tecnologia solar capaz de filtrar e desinfetar a água armazenada em cisternas, tornando-a própria para consumo humano.
Criadora do Aqualuz e fundadora da SDW For All, Anna Luísa liderou o desenvolvimento de outras oito tecnologias sustentáveis voltadas ao saneamento rural, com um retorno social estimado de R$ 27 para cada real investido, o que já representa mais de R$ 100 milhões em benefícios socioambientais. Seu trabalho rendeu reconhecimento internacional e ela é a única brasileira a receber o prêmio Jovens Campeões da Terra, concedido pela Organização das Nações Unidas (ONU).
A trajetória de Anna Luísa com a água começa cedo. Ainda aos 15 anos, movida pela paixão pela ciência, ela decidiu participar do “Prêmio Jovem Cientista”, do CNPq, mesmo sem acesso a laboratórios ou estrutura universitária. O ano era 2013, declarado pela ONU como Ano Internacional de Cooperação pela Água, e o tema do prêmio coincidiu com uma inquietação pessoal que se intensificou após a leitura de “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos.
Até então, a jovem cientista imaginava que seu futuro estaria ligado a grandes descobertas biomédicas, como a cura de doenças. A realidade do saneamento, porém, revelou-se um problema estrutural, multifatorial e urgente. Também um campo onde a inovação tecnológica ainda não chegava às populações mais vulneráveis.
Buscando soluções viáveis, Anna Luísa usou uma técnica com apenas a luz do sol para eliminar microrganismos patogênicos. A pergunta que a guiou foi simples e poderosa: como um país com tanto sol ainda não aproveita essa solução em larga escala?
A partir daí, ela adaptou o método à realidade brasileira, considerando o uso de cisternas de captação de água da chuva, comuns no semiárido. A primeira versão do Aqualuz foi construída com vidro, papel alumínio e cortiça, para maximizar o aproveitamento térmico. Hoje, a tecnologia já está na versão 17, muito mais robusta, eficiente e adequada ao uso cotidiano.
Entre 2015 e 2019, o crescimento foi lento e cheio de desafios. A equipe era formada por estudantes e voluntários, e os recursos vinham de premiações e editais pontuais. A virada aconteceu em 2019, após a conquista do prêmio da ONU, que abriu portas para parcerias estratégicas e projetos financiados por empresas privadas, especialmente por meio de programas de responsabilidade social corporativa.
Hoje, a SDW For All atua junto a empresas dos setores de energia, mineração, petróleo e gás, bebidas, alimentos e finanças, levando soluções de água e saneamento a comunidades localizadas no entorno de grandes empreendimentos.
Além do Aqualuz, o portfólio inclui o Aquasalina (dessalinizador solar), Aquafiltro e Aquatorre (sistemas de filtragem comunitária), além de soluções de saneamento como o Sano Seco (banheiro seco) e o Sano Plante, nova tecnologia de tratamento de efluentes ainda em fase de implementação.
Cada unidade do Aqualuz custa cerca de R$ 1.000 e tem um custo de tratamento estimado em R$ 0,06 a cada 10 litros de água, segundo dados da SDW For All. Estudos de impacto conduzidos pela própria organização indicam que o acesso à água tratada reduz significativamente casos de doenças de veiculação hídrica, melhora a frequência escolar, diminui gastos com medicamentos e transporte para unidades de saúde e amplia a capacidade produtiva das famílias.
“A água está no centro de tudo: saúde, educação, renda, segurança alimentar. Investir em saneamento é uma das políticas públicas com maior retorno social possível”, destaca Anna Luísa.
Um dos diferenciais da SDW For All é a compreensão de que não existe solução única para um país de dimensões continentais. As tecnologias são adaptadas às realidades locais, considerando clima, disponibilidade de espaço, fontes de água e organização social. “O que funciona no semiárido nordestino pode não funcionar na Amazônia ou no Sul do país”, explica.
Por isso, o trabalho de campo e o envolvimento direto das comunidades são considerados essenciais para o sucesso das soluções.
O desafio das políticas públicas
Apesar dos resultados comprovados, a relação com o poder público ainda enfrenta entraves. Segundo a cientista, há dificuldades que vão desde burocracia e legislações desatualizadas até práticas antiéticas, como a exigência de comissões de prefeituras para viabilizar projetos, algo que a organização se recusa a aceitar.
“Investir em saneamento economiza recursos do SUS, melhora a educação, gera renda e reduz desigualdades. O governo deveria ser o principal interessado”, afirma. Embora existam parlamentares e gestores públicos aliados, a escala necessária para enfrentar o problema ainda depende de políticas estruturantes que caminham lentamente.
A trajetória de Anna Luísa também lança luz sobre um problema estrutural da ciência no Brasil: a dificuldade de transformar pesquisa em solução prática. A lógica acadêmica, centrada na publicação de artigos, muitas vezes afasta os cientistas da aplicação real de suas descobertas.
“Eu sonhava em fazer mestrado e doutorado, mas não encontrei apoio institucional para seguir minha pesquisa. Acabei entendendo que ser cientista e empreendedora social ao mesmo tempo era o caminho mais eficaz para gerar impacto”, afirma.
Para ela, aproximar universidades, setor privado e políticas públicas é essencial para que o Brasil deixe de importar soluções e passe a valorizar seu próprio conhecimento científico.“Quando a ciência encontra o território e o propósito social, a transformação acontece”, explica.
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