Pesquisa indica que programa criado em 2003 pelo presidente Lula, reduziu internações por doenças hídricas, aumentou empregos formais e elevou renda em áreas atendidas no Nordeste
Sexta-feira, (06) de fevereiro de 2026
A instalação de cisternas no semiárido nordestino tem contribuído não apenas para garantir acesso regular à água, mas também para reduzir a dependência de programas sociais e melhorar indicadores econômicos e de saúde pública. Um estudo divulgado pelo Instituto da Economia do Trabalho (IZA) aponta que a chegada das cisternas provocou uma queda expressiva no número de famílias beneficiárias do Bolsa Família nas regiões contempladas. As informações são do Valor Econômico.
A pesquisa analisou dados de mais de 600 mil indivíduos atendidos entre 2003 e 2017 e concluiu que a proporção de famílias inscritas no Bolsa Família diminuiu 30,4% após a implementação das estruturas. Antes do início do programa, 56% dos pesquisados recebiam o benefício; após a chegada das cisternas, esse percentual caiu para 35%.
O levantamento foi realizado por pesquisadores brasileiros com base em informações do próprio Programa Cisternas, cruzadas com registros do Cadastro Único para programas sociais, da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) e do Sistema de Internações Hospitalares. Os autores também observaram que, em média, a probabilidade de permanência das famílias no Cadastro Único recuou nove pontos percentuais já no terceiro ano depois da instalação das cisternas.
Além da redução da dependência de transferência de renda, o estudo identificou melhora na inserção dessas populações no mercado formal de trabalho. A pesquisa aponta um crescimento de 12% nos empregos com carteira assinada e aumento de 20% na renda do trabalho, sempre em comparação com um grupo de controle não atendido pela política pública.
Os pesquisadores destacam que os efeitos econômicos medidos consideram apenas o mercado formal, embora o impacto possa ser maior. Isso porque, antes da implementação do programa, apenas 13% dos indivíduos empregados nessas regiões possuíam carteira assinada, indicando que parte relevante da melhora pode ter se espalhado também pela economia informal.
O estudo também registra efeitos significativos na saúde. De acordo com as estimativas, a melhoria da qualidade da água consumida reduziu as hospitalizações por doenças associadas à água em 16% entre adultos e em 37% entre crianças. Os autores observam ainda que não houve mudanças nas internações por enfermidades não relacionadas à qualidade da água, reforçando a associação direta entre o programa e os resultados obtidos.
Para os pesquisadores, a principal explicação para os ganhos econômicos está no tempo que deixou de ser gasto diariamente na busca por água. Antes das cisternas, muitas famílias levavam entre uma e duas horas por dia para coletar água destinada às atividades domésticas. Com a chegada do programa, a proporção de famílias que passou a gastar 15 minutos ou menos nessa tarefa saltou de 7% para 93%.
“Muitas dessas famílias buscavam água em poços contaminados. Ou seja, além de ser um choque de saúde, a chegada da cisterna vira choque de tempo disponível”, afirmou Yuri Barreto, um dos autores do estudo, que assina o trabalho ao lado de Lucas Emanuel, Diogo Britto, Bladimir Carrillo, Daniel Da Mata e Breno Sampaio.
Barreto também destacou o impacto desse tempo livre sobre a possibilidade de buscar trabalho formal em áreas mais distantes. “A maior parte dos afetados mora em áreas da zona rural mais remotas, então buscar emprego com carteira significa muitas vezes ir para longe, para as maiores cidades da região. Com pouco tempo disponível, essas oportunidades eram, na prática, inacessíveis”, explicou.
O levantamento aponta que os efeitos de redução da dependência do Bolsa Família e aumento das chances de conseguir emprego formal foram ainda mais intensos entre famílias com crianças de até dois anos, grupo considerado mais sensível à restrição de tempo e à disponibilidade de água. Ao mesmo tempo, os pesquisadores identificaram queda de 23% na probabilidade de exclusão do benefício por descumprimento de condicionalidades.
Para manter os pagamentos, o Bolsa Família exige presença escolar mínima, vacinação em dia e acompanhamento pré-natal no caso de gestantes. Nesse contexto, a ampliação do acesso à água também teria contribuído para maior regularidade no cumprimento dessas exigências.
“Os resultados mostram que o programa tem um benefício alto, mesmo sem levar em consideração outros efeitos secundários, como os que ocorrem com a geração dos filhos dos beneficiários”, afirmou Breno Sampaio, professor de economia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e pesquisador associado do IZA.
Ele também ressaltou o custo relativamente baixo da política pública. “Levando em consideração que o custo do programa é baixo - em média, R$ 4,1 mil por cisterna, que leva um dia para instalar e tem fácil manuseio -, é uma política bem interessante bancar esse investimento para famílias que não têm esse recurso”, disse.
Criado em 2003, o programa foi inicialmente batizado de “Programa 1 milhão de cisternas” e atingiu a meta original em 2017. Até 2024, foram construídas 1,1 milhão de cisternas voltadas ao abastecimento doméstico, além de 215 mil destinadas à agricultura e 8 mil instaladas em escolas rurais, beneficiando mais de 1,5 mil municípios do semiárido nordestino.
Em publicação comemorativa dos 20 anos do programa, o Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), responsável pela execução da iniciativa, estimou que os investimentos acumulados chegaram a aproximadamente R$ 4 bilhões.
Os autores do estudo defendem que a política pública tende a ganhar ainda mais relevância diante do avanço da emergência climática. Para eles, a relação custo-benefício e os impactos sociais indicam que o programa pode ter continuidade e expansão, sobretudo em municípios onde a cobertura ainda é limitada.
“Apesar de bem estabelecido, ele tem uma cobertura que varia muito de cidade para cidade. Em algumas das analisadas, menos de 30% das famílias elegíveis foram beneficiadas”, afirmou Lucas Emanuel, da Universidade Federal da Bahia.
O pesquisador também citou dados climáticos que reforçam a necessidade de ampliar iniciativas de segurança hídrica. “Então é uma iniciativa que ainda tem muito para expandir, ainda mais levando em consideração os problemas de médio prazo da região, onde a questão da seca só deve crescer. Segundo estimativas da Climate Policy Iniciative [CPI, na sigla em inglês], os índices de aridez só aumentaram nos últimos 50 anos, enquanto os índices de chuva só caíram."
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