TRANSPARÊNCIA INTERNACIONAL COBRA DE FLÁVIO BOLSONARO EXPLICAÇÃO SOBRE FATURAMENTO DE R$ 13,7 MILHÕES DE ESCRITÓRIO DE ADVOCACIA

ONG também ressalta que a OAB 'é cobrada há anos por organismos internacionais por resistir à adoção de padrões elementares de prevenção à lavagem de dinheiro'
Quara-feira, (21) de outubro de 2026
O candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) passou a ser cobrado publicamente pela Transparência Internacional-Brasil para esclarecer a origem de pelo menos R$ 13,7 milhões faturados por seu escritório de advocacia enquanto exercia o mandato de senador. A organização questiona como uma banca registrada na residência do parlamentar, sem outros advogados ou empregados, conseguiu obter contratos milionários em poucos anos de funcionamento.

Segundo reportagem de O Globo, publicada nesta quarta-feira (21), a cobrança ocorreu após o UOL revelar informações de 62 documentos fiscais emitidos pelo escritório entre janeiro de 2023 e julho de 2026. O levantamento, confirmado pelo jornal, expôs pagamentos milionários, relações com personagens investigados pela Polícia Federal (PF) e movimentações financeiras que levantaram questionamentos sobre a efetiva prestação dos serviços jurídicos.

Em publicação nas redes sociais, a Transparência Internacional-Brasil apresentou uma série de perguntas dirigidas ao presidenciável. A entidade quer saber como o escritório alcançou faturamento tão elevado durante o exercício do mandato parlamentar, de que maneira os serviços foram executados sem uma equipe de advogados e como uma sociedade aberta em 2021 conseguiu conquistar contratos de grande valor em um intervalo relativamente curto.

A organização também questionou a contratação de uma administradora cujo irmão foi preso em investigação sobre fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), além da relação financeira do senador com o advogado Willer Tomaz, investigado em apurações envolvendo lavagem de dinheiro e plataformas de apostas.

Transparência Internacional alerta para riscos de lavagem de dinheiro
A entidade relacionou os questionamentos ao debate sobre mecanismos de fiscalização financeira dos escritórios de advocacia no Brasil. Em nota, criticou a resistência da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) à implementação de controles destinados a prevenir a utilização de serviços jurídicos em operações ilícitas.

“A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) é cobrada há anos por organismos internacionais por resistir à adoção, na advocacia, de padrões elementares de prevenção à lavagem de dinheiro. Contratos advocatícios fictícios ou superfaturados são cada vez mais utilizados para ocultar a origem e lavar dinheiro da corrupção e do crime organizado violento”, afirmou a Transparência Internacional-Brasil.

A manifestação não representa uma conclusão de que os contratos do senador sejam fictícios ou tenham sido utilizados para lavagem de dinheiro. A organização cobra esclarecimentos diante das características do faturamento e das relações financeiras identificadas nas reportagens.

Escritório recebeu R$ 4 milhões de banca ligada a indicado de Jair Bolsonaro
Entre os clientes identificados nos documentos fiscais, o maior volume de pagamentos veio do Nilo & Almeida Advogados Associados, escritório que tem como sócio Edvaldo Nilo de Almeida, nomeado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro para a Comissão de Ética Pública da Presidência da República em 2022.

A banca realizou dois pagamentos de R$ 2 milhões ao escritório de Flávio, registrados em notas fiscais emitidas em agosto e outubro de 2025. O montante de R$ 4 milhões corresponde a aproximadamente 29% dos R$ 13,7 milhões documentados.

As notas descrevem os serviços como “assessoria jurídica”, mas não apresentam informações específicas sobre processos ou atividades executadas. Os documentos indicam uma conta mantida no Banco de Brasília (BRB) como destino dos pagamentos.

Procurado pelo UOL, Edvaldo Nilo declarou que os valores decorrem de um contrato firmado em abril de 2025 e negou irregularidades.

Em manifestação encaminhada a O Globo, o escritório apresentou a seguinte explicação:
“Os serviços foram regularmente prestados conjuntamente pelos dois escritórios a clientes privados, sem qualquer envolvimento de recursos públicos ou participação de entes federativos. Após a efetiva prestação dos serviços, as respectivas notas fiscais foram emitidas e os valores correspondentes foram pagos em 06/08/25 e em 21/10/25, data em que se encerrou a relação contratual”.

Polícia Federal investiga relação com advogado ligado a apostas
Outro ponto levantado pela Transparência Internacional envolve Willer Tomaz, advogado que mantém relações profissionais com Flávio Bolsonaro e é investigado pela Polícia Federal.

Conforme a reportagem, uma das contas do Santander identificadas nas notas fiscais do escritório do senador é a mesma que, segundo a PF, teria apresentado vínculos financeiros entre Flávio e Tomaz.

Ambos negam ter compartilhado uma conta bancária.
A investigação apura suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas por meio de plataformas de apostas esportivas. O procedimento teve origem em uma apuração conduzida pela Polícia Federal no Rio Grande do Sul e tramita no Supremo Tribunal Federal (STF), sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes.

Os investigadores procuram esclarecer se o senador e o advogado tiveram participação conjunta em operações financeiras suspeitas relacionadas ao setor de apostas.

Tomaz também é investigado por suspeita de envolvimento nas fraudes do INSS e já foi alvo de mandado de busca e apreensão.

A Transparência Internacional questiona ainda a natureza dos vínculos financeiros entre os dois, mencionando reportagens segundo as quais o advogado teria custeado viagens internacionais e voos particulares do parlamentar.

As investigações permanecem em andamento, sem que os elementos apresentados constituam, por si só, comprovação de participação do senador nos crimes investigados.

Pagamento de R$ 500 mil envolve empresa ligada ao Banco Master
O levantamento também identificou uma operação que conecta o escritório de Flávio Bolsonaro a uma empresa relacionada a negócios com o Banco Master.

Uma nota fiscal revela que a banca recebeu R$ 500 mil em abril de 2025 por serviços descritos como “assessoria jurídica” prestados a uma empresa ligada a uma consultoria que recebeu R$ 58 milhões do Banco Master entre 2024 e 2025.

A documentação apresentada na reportagem não demonstra que o pagamento ao escritório do senador tenha sido feito diretamente pelo banco, mas evidencia uma relação comercial indireta com uma empresa vinculada a uma das consultorias remuneradas pela instituição financeira.

O episódio acrescenta uma nova frente de questionamentos sobre os clientes e os serviços prestados pela sociedade de advocacia do presidenciável.

Administradora tem irmão preso em investigação sobre fraudes do INSS
A estrutura administrativa do escritório também chamou a atenção da Transparência Internacional.

De acordo com registros da Receita Federal, a sociedade é administrada por Letícia Caetano dos Reis, profissional da área contábil que trabalha à distância e reside a aproximadamente 35 quilômetros da sede da banca.

O escritório funciona no endereço da mansão de Flávio Bolsonaro em Brasília, adquirida em 2021 por R$ 5,97 milhões.

Letícia é irmã de Alexandre Caetano dos Reis, preso sob suspeita de envolvimento nas fraudes contra aposentados e pensionistas do INSS. Segundo a Polícia Federal, o escritório de contabilidade de Alexandre prestava serviços a Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, um dos principais investigados no esquema.

A defesa de Alexandre afirmou que ele “apenas exerce sua profissão, sem participação em supostos ilícitos”.

O Globo procurou Letícia em sua residência, mas ela não quis conversar com os jornalistas. Seu marido, Raphael Silveira, afirmou que a mulher trabalhava para o escritório de contabilidade do irmão, inicialmente de forma presencial e posteriormente em regime remoto.

Ele não esclareceu quais atividades ela desempenha para a sociedade de advocacia de Flávio.

“Vocês podem vasculhar a vida da minha esposa que não vão encontrar nada. As contas dela estão todas abertas para quem quiser investigar”, declarou Silveira.

Em entrevista concedida à Agência Pública em 2022, Letícia havia afirmado que não tinha acesso aos contratos celebrados pelo senador e que mantinha contato com ele apenas pelo WhatsApp.

Parlamentares do PT chegaram a apresentar requerimentos para convocá-la à CPI do INSS e quebrar seus sigilos, mas os pedidos não foram votados.

Atuação judicial contrasta com faturamento milionário
Um levantamento realizado por O Globo identificou pelo menos 18 processos judiciais nos quais o escritório de Flávio Bolsonaro aparece como parte. O número não inclui ações protegidas por sigilo judicial.

Embora o volume de casos publicamente identificados seja relativamente limitado, a atuação da banca abrange disputas empresariais, questões cíveis e processos criminais.

No Superior Tribunal de Justiça (STJ), Flávio aparece ao lado de Willer Tomaz em uma disputa envolvendo o controle de uma grande fabricante de balas e pirulitos localizada no Rio Grande do Norte.

Os advogados representam um dos sócios da empresa em um processo relacionado à execução de R$ 159 milhões sobre contas e bens da companhia. A controvérsia judicial se estende há mais de duas décadas.

Em outro processo no STJ, o senador apresentou, em 2025, um habeas corpus para tentar encerrar uma ação penal contra dois ex-sócios de Glaidson Acácio dos Santos, conhecido como Faraó dos Bitcoins.

Glaidson foi preso sob acusação de comandar um esquema bilionário de captação de recursos por meio de criptoativos e nega as irregularidades.

O escritório também participou de disputas relacionadas aos negócios particulares do senador. Uma delas envolveu uma antiga loja de chocolates no Rio de Janeiro, cuja contabilidade foi objeto de conflito judicial entre Flávio e um ex-sócio.

O parlamentar pediu judicialmente a prestação de contas depois de ser notificado sobre uma dívida de R$ 1,5 milhão. A solicitação foi indeferida em dezembro de 2023.

A loja havia sido investigada anteriormente pelo Ministério Público no âmbito das suspeitas de um esquema de rachadinha no gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. O senador sempre negou as acusações, e a denúncia foi anulada por instâncias superiores.

Exercício da advocacia é permitido, mas tem restrições
A legislação brasileira permite que parlamentares exerçam a advocacia, desde que respeitem as incompatibilidades e os impedimentos previstos no Estatuto da OAB.

Entre as restrições está a proibição de atuar contra ou a favor de determinadas entidades públicas, conforme as hipóteses estabelecidas pela legislação profissional.

Flávio Bolsonaro é formado em Direito pela Universidade Candido Mendes, no Rio de Janeiro, e já realizou estágio na Defensoria Pública fluminense.

No Supremo Tribunal Federal, o senador aparece como advogado em dois casos identificados pelo levantamento. Um deles envolve a execução penal de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado no processo sobre a trama golpista.

O outro corresponde a uma queixa-crime apresentada pelo próprio Flávio contra o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad, após declarações sobre a aquisição de imóveis pelo parlamentar.

A existência dessas atuações judiciais comprova o exercício de atividades advocatícias, mas não esclarece, isoladamente, a composição integral dos R$ 13,7 milhões faturados pela banca.

Senador mantém sigilo sobre clientes
Flávio Bolsonaro tem recorrido ao argumento do sigilo profissional para não divulgar a relação completa de clientes de seu escritório.

A ausência de informações detalhadas sobre os contratos impede uma avaliação pública mais abrangente da natureza dos serviços que deram origem às receitas milionárias.

O senador não apresentou manifestação à reportagem de O Globo sobre os novos questionamentos relativos à administração da banca.

A cobrança da Transparência Internacional ocorre em meio à campanha presidencial e amplia a pressão para que o candidato esclareça suas atividades empresariais e profissionais durante o exercício do mandato no Senado.

O ponto central levantado pela organização é a necessidade de explicar como uma estrutura advocatícia aparentemente reduzida conseguiu movimentar milhões de reais, quem contratou os serviços e quais atividades justificaram os pagamentos.

Até o momento, as informações divulgadas não permitem concluir que o faturamento seja ilícito, mas deixam sem resposta pública uma série de perguntas sobre os contratos, os clientes e as relações financeiras do presidenciável.


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