Terça-feira, (08) de setembro de 2026
A colaboração premiada do operador financeiro Antonio Carlos Freixo Júnior, conhecido como “Mineiro”, trouxe novos elementos à investigação sobre o financiamento do filme “Dark Horse”, produção sobre a trajetória política de Jair Bolsonaro que se tornou foco de apurações da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República.
Segundo a coluna de Malu Gaspar, no jornal O Globo, Mineiro confirmou à PGR ter feito sete transferências bancárias, ao longo de 2025, para o fundo Havengate, sediado nos Estados Unidos e administrado pelo advogado de imigração Paulo Calixto, próximo de Eduardo Bolsonaro. Os repasses somaram US$ 12,3 milhões, cerca de R$ 69 milhões no câmbio da época, e teriam sido feitos a pedido do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
O Havengate foi usado no financiamento de “Dark Horse”, longa-metragem sobre a trajetória de Jair Bolsonaro, com destaque para a campanha presidencial de 2018 e o episódio da facada. A estreia do filme, de acordo com a apuração, ficou prevista apenas para depois das eleições deste ano.
Uma das frentes de investigação da PF e da PGR busca verificar se as transferências ao fundo foram destinadas exclusivamente à produção cinematográfica ou se também podem ter servido para financiar a permanência de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. O ex-deputado federal mudou-se para o Texas em fevereiro de 2025, sob a alegação de sofrer perseguição política no Brasil.
As parcelas ao Havengate foram feitas entre fevereiro e setembro de 2025. O sétimo pagamento, de US$ 1,66 milhão, aproximadamente R$ 9 milhões à época, havia sido revelado pela revista piauí. Além das transferências bancárias, Mineiro relatou aos investigadores entregas de dinheiro vivo, inclusive em malas, a terceiros indicados por Vorcaro. O delator, porém, disse não saber qual seria a finalidade desses repasses.
Nesta terça-feira (8), às 14h, a defesa de Mineiro vai ao gabinete do ministro André Mendonça, relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal, para tratar de aspectos do acordo de colaboração. A análise envolve pontos como voluntariedade, regularidade e legalidade da negociação, etapa anterior a uma eventual homologação pelo ministro.
O caso “Dark Horse” já havia provocado desgaste na campanha de Flávio Bolsonaro à Presidência da República. A crise ganhou força após o Intercept Brasil publicar mensagens em que o senador aparece cobrando dinheiro de Daniel Vorcaro, supostamente para financiar a produção do filme. Depois da repercussão e do impacto nas pesquisas eleitorais, Flávio prometeu apresentar as contas da obra, mas posteriormente mudou o discurso, tentou se afastar do episódio e passou a tratar o assunto como “página virada”.
A apuração também aponta questionamentos sobre os custos da produção. Uma perícia privada contratada pela Go Up Entertainment, produtora de “Dark Horse”, afirma que o filme teria custado US$ 13,39 milhões, o equivalente a R$ 75,18 milhões na cotação utilizada pelo perito Anísio Costa Castelo Branco.
De acordo com o documento, 72% dos gastos ocorreram nos Estados Unidos e 28% no Brasil. Das cinco fases de realização do projeto, apenas uma, a de filmagens, teria sido feita em território brasileiro. As demais etapas foram executadas nos EUA.
Entre os gastos no exterior, a perícia lista US$ 2,66 milhões em pré-produção, US$ 1,96 milhão em pós-produção, US$ 1,97 milhão em produção, US$ 383,2 mil no desenvolvimento do projeto e US$ 2,69 milhões na etapa chamada de “soft production”, voltada a questões logísticas e administrativas anteriores à pré-produção.
Esse último ponto gerou estranhamento entre profissionais do setor audiovisual ouvidos reservadamente pela coluna de O Globo. Segundo esses produtores, o custo da “soft production” foi considerado elevado para os padrões do mercado. A etapa representou cerca de 20% do orçamento total do filme, enquanto, em média, costuma consumir de 3% a 5% dos recursos de uma produção.
A pré-produção, por sua vez, teria custado US$ 2,66 milhões, valor ligeiramente inferior ao da chamada “soft production”. A comparação também chamou atenção porque a pré-produção costuma envolver mobilização mais ampla de equipes, elaboração de figurinos, preparação técnica, definição de locações, ensaios e organização das filmagens.
No mês passado, a Polícia Federal cobrou da Go Up esclarecimentos sobre “aspectos financeiros, contratuais e operacionais” de “Dark Horse”. A resposta da produtora foi encaminhada na última sexta-feira (4). A Go Up, segundo a reportagem, nunca lançou nenhum filme nos cinemas brasileiros.