Frase estarrecedora foi enviada ao secretário de Estado Marco Rubio; nenhum governo brasileiro foi capaz disto, nem os militares
Sexta-feira, (26) de junho de 2026
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| Marco Rubio e Flávio Bolsonaro — Foto: Reprodução/Redes Sociais |
No documento, Rubio agradece a visita de Flávio Bolsonaro a Washington e a carta em que o senador pediu recuo do governo Donald Trump sobre a proposta de novas tarifas contra produtos brasileiros. O secretário de Estado, porém, não acolheu o apelo do bolsonarista e manteve a pressão comercial sobre o Brasil.
O trecho mais sensível aparece no fim da carta. Rubio registra a “generosa oferta” de Flávio Bolsonaro de “colocar uma equipe de transição à nossa disposição” e acrescenta a ressalva “caso o senhor seja eleito”. A formulação expõe uma promessa sem base no funcionamento da transição presidencial brasileira.Trecho da carta enviada para Flávio Bolsonaro por Marco Rubio. Foto: Reprodução
No Brasil, a equipe de transição é prevista para o candidato eleito, não para pré-candidato. A Lei nº 10.609, de 2002, permite ao presidente eleito instituir equipe para obter informações da administração pública federal e preparar os primeiros atos do futuro governo. O mecanismo não prevê estrutura prévia posta à disposição de governo estrangeiro.
Rubio também agradeceu o apoio de Flávio Bolsonaro à decisão dos Estados Unidos de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas sob a legislação estadunidense. Em relação às tarifas, afirmou que seguem as divergências sobre comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, tarifas preferenciais, combate à corrupção, propriedade intelectual, etanol e desmatamento.
A carta remeteu Flávio Bolsonaro ao USTR, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos. No mesmo dia 23 de junho, o senador enviou pedido para participar da audiência pública sobre a proposta de tarifa de 25% contra produtos brasileiros, marcada para 6 de julho. No documento apresentado ao órgão, ele se identifica como senador e pré-candidato à Presidência, pede cinco minutos de fala e informa que pretende discursar em inglês.
O resumo do testemunho enviado por Flávio Bolsonaro diz que ele se opõe às tarifas e a qualquer medida contra o Pix. Também sustenta que a sobretaxa poderia beneficiar o governo Lula, ao mesmo tempo em que recairia sobre exportadores brasileiros, importadores estadunidenses, consumidores dos Estados Unidos e a oposição brasileira.
A ofensiva de Flávio Bolsonaro ocorre em meio à reação do Itamaraty, que afirmou que “os traidores da Pátria não conseguirão reescrever a história”. O ministério disse que o tarifaço tem origem em uma tentativa de interferência externa na Justiça brasileira e cobrou pedido de desculpas pelos prejuízos causados ao país.
Submissão
A iniciativa foi recebida com forte reação de integrantes do governo Lula, parlamentares da esquerda e setores da diplomacia brasileira. A oferta foi classificada como incompatível com a tradição de autonomia da política externa brasileira.
Críticos argumentam que a disposição de compartilhar estruturas de transição governamental com uma potência estrangeira antes mesmo da realização das eleições representa uma quebra de protocolo institucional e uma demonstração de subordinação política aos interesses de Washington.
A resposta de Rubio
A resposta de Rubio acabou ampliando o constrangimento político para Flávio Bolsonaro. Embora tenha agradecido o apoio brasileiro à classificação das facções criminosas como organizações terroristas, o secretário reafirmou integralmente a posição da administração Trump favorável às tarifas contra o Brasil.
“O embaixador Jamieson Greer deixou claro que nós permanecemos com diferenças substanciais em relação à solução das irregularidades apontadas nesta investigação”, escreveu Rubio, ao citar divergências relacionadas ao comércio digital, aos sistemas de pagamento eletrônico — incluindo o Pix —, à propriedade intelectual, ao acesso ao mercado de etanol e ao combate ao desmatamento ilegal.
Estratégia política fracassada
A carta foi enviada após uma série de reuniões realizadas por Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos, no fim de maio, quando o senador buscava projetar sua imagem internacional e fortalecer sua pré-candidatura presidencial.
A estratégia, no entanto, acabou produzindo o efeito oposto ao esperado. Dias depois da visita, o governo americano anunciou a conclusão das investigações comerciais que propõem novas sanções contra o Brasil. No mesmo dia, Donald Trump publicou uma fotografia ao lado de Flávio Bolsonaro no Salão Oval da Casa Branca, ampliando as acusações de interferência eleitoral e associando diretamente o senador à política de pressão econômica contra o país.
Para críticos do parlamentar, o episódio revelou uma contradição política: ao mesmo tempo em que buscava demonstrar proximidade com a Casa Branca, Flávio passou a ser cobrado por não conseguir impedir medidas que podem prejudicar exportadores e setores produtivos brasileiros.
Nem o apoio político garantiu recuo dos EUA
Apesar de elogiar o “otimismo eleitoral” do senador e agradecer sua disposição para construir uma ponte política entre Brasília e Washington, Rubio deixou claro que os Estados Unidos trabalharão com “os líderes escolhidos pelo povo brasileiro”, independentemente do resultado eleitoral.
Na resposta fica claro que, apesar da afinidade ideológica entre o bolsonarismo e o trumpismo, Washington não pretende flexibilizar sua agenda comercial em troca de alinhamentos políticos ou promessas de cooperação futura.
Na prática, a carta que pretendia afastar Flávio Bolsonaro da responsabilidade política pelo tarifaço acabou reforçando o fato. A família tentou, de fato, utilizar sua proximidade com Donald Trump para influenciar disputas internas brasileiras sem obter qualquer resultado concreto para impedir as sanções econômicas contra o país.
