Beattie havia sido nomeado pelo governo Donald Trump no mês passado para supervisionar a política dos Estados Unidos em relação ao Brasil
Sábado, (14) de março de 2026
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| Darren Beattie é assessor do Departamento de Estado dos EUA. |
"A medida expôs os muitos atritos que ainda persistem entre Washington e Brasília, apesar da relativa reaproximação entre Trump e Lula no final do ano passado. As relações despencaram para o ponto mais baixo em anos como resultado da campanha de pressão de Trump, com tarifas e sanções direcionadas a autoridades como Padilha. Mas, após o encontro dos dois presidentes na ONU em setembro passado, o clima melhorou, com Trump elogiando a 'grande química' entre eles", escreveu o britânico The Guardian.
A temperatura entre os dois países havia diminuído após a breve distensão iniciada com o encontro dos presidentes Trump e Lula na Malásia, em outubro de 2025. As duas partes, atualmente, trabalham nos bastidores para acertar um plano de cooperação no combate ao crime organizado. A mais recente proposta americana inclui reproduzir no país modelo semelhante ao adotado em El Salvador, com a transferência de presos de outros países capturados nos EUA.
A agência de notícias Reuters foi na mesma linha. "Beattie, um crítico do governo brasileiro, foi nomeado pelo presidente dos EUA para um cargo de consultor sênior para monitorar o país sul-americano no mês passado, o que sugere que as relações entre as duas nações permanecem delicadas", afirma a reportagem.
Interferência nas eleições
O The New York Times destacou que o envio de Beattie gera temores de interferência dos EUA nas eleições brasileiras. "O presidente Trump está tentando ajudar um aliado de direita no Brasil — mais uma vez", diz o texto publicado nesta sexta-feira.
O jornal americano acrescenta que Trump estava "ansioso" para salvar Bolsonaro da prisão no ano passado, quando impôs pesadas tarifas ao país e sanções ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), mas "fracassou".
"Agora, o principal enviado do governo Trump para o Brasil está reacendendo os temores de que Washington não terminou suas investidas", diz a reportagem. "A iniciativa provocou forte reação negativa no Brasil, que acusou o governo Trump de tentar interferir em seus assuntos internos a poucos meses da próxima eleição presidencial".
Também americano, o Washington Post destacou a alegação de reciprocidade mencionada por Lula. O presidente brasileiro "vinculou sua decisão sobre o visto (de Beattie) a uma medida tomada em agosto pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio, de revogar os vistos de autoridades brasileiras supostamente ligadas a um programa cubano que envia médicos para o exterior".
Entenda o caso
Interlocutores do Itamaraty afirmaram que a revogação do visto de Darren Beattie, assessor do governo de Donald Trump, teve como justificativa informações falsas prestadas por ele no momento que fez a solicitação de entrada no Brasil. Beattie era aguardado em um evento sobre minerais críticos que ocorrerá na semana que vem em São Paulo, mas também tinha a intenção de visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro na prisão, em Brasília.
A avaliação de integrantes do governo é que houve "omissão e falseamento de informações" relevantes quanto ao motivo da visita por ocasião da solicitação do visto, em Washington. Esse fundamento, afirmaram, é princípio legal suficiente para a denegação de visto, de acordo com a legislação nacional e internacional.
No governo brasileiro, o caso envolvendo Darren Beattie é tratado como "episódio isolado de má-fé diplomática", e não como uma crise bilateral com os EUA. Portanto, não existe receio em Brasília de que o encontro entre Lula e o presidente Donald Trump, ainda sem data definida, deixe de ocorrer por causa do visto do funcionário americano.
Em evento no Rio, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ter proibido a visita de Beattie ao Brasil. Ao comentar o caso, o presidente vinculou a medida ao episódio envolvendo o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, cuja família teve visto cancelado pelos Estados Unidos no ano passado.
— Aquele cara americano que disse que vinha pra cá, pra visitar o Jair Bolsonaro, ele foi proibido de visitar e eu o proibi de vir ao Brasil, enquanto não liberar os vistos do ministro da Saúde, que está bloqueado — disse Lula. Em seguida, acrescentou: — Bloquearam o visto do Padilha, o visto da mulher dele e o visto da filha dele de 10 anos.
A defesa de Bolsonaro havia recebido autorização do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), para Beattie visitar o ex-presidente na Papudinha, onde ele cumpre pena por tentativa de golpe de Estado.
Na quinta-feira, porém, Moraes voltou atrás e negou autorização para a visita. A decisão reconsiderou despacho anterior que autorizava o encontro durante a passagem de Beattie pelo Brasil.
Ao rever o caso, Moraes acolheu informações enviadas pelo chanceler Mauro Vieira ao Supremo. No ofício, o ministro informou que o pedido de visto apresentado em Washington mencionava apenas participação no Fórum Brasil-EUA de Minerais Críticos e reuniões com autoridades brasileiras, sem qualquer referência à intenção de visitar Bolsonaro.
Na decisão, Moraes afirmou que a visita não estava vinculada às atividades oficiais indicadas e citou o risco de “indevida ingerência em assuntos internos”, argumento apresentado pelo Itamaraty ao tribunal.
A defesa de Bolsonaro havia pedido autorização para que Beattie pudesse visitá-lo nos dias 16 ou 17 de março, durante sua passagem pelo país. A decisão manteve a regra segundo a qual visitas ao ex-presidente dependem de autorização judicial. Bolsonaro está preso por decisão do Supremo no âmbito das investigações relacionadas à tentativa de golpe após as eleições de 2022.
Segundo informações divulgadas posteriormente, o pedido de agenda diplomática para Darren Beattie ocorreu apenas de última hora. Após Moraes pedir esclarecimentos sobre a viagem e a possível visita ao ex-presidente, a Embaixada dos Estados Unidos em Brasília solicitou reuniões para o assessor com autoridades do Ministério das Relações Exteriores. O pedido foi feito apenas depois da solicitação de visita a Bolsonaro e sem que houvesse qualquer agenda diplomática previamente comunicada ao Itamaraty.
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