Por que Campos Neto ignorou 38 denúncias sobre irregularidades no Banco Master e permitiu captações irregulares?
Quarta-feira, (28) de janeiro de 2026
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| O presidente Jair Bolsonaro e o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto |
O crescimento acelerado do banco controlado por Daniel Vorcaro ocorreu entre 2019 e 2024, período em que Campos Neto chegou a impor um ultimato informal para que fosse encontrada uma “solução definitiva” até março de 2025. A liquidação, no entanto, acabou sendo decretada apenas em novembro do ano passado, já sob a presidência de Gabriel Galípolo.
O Tribunal de Contas da União deu início a uma inspeção para apurar a atuação do Banco Central do Brasil no processo que culminou na liquidação do Banco Master. No centro da análise está a conduta adotada durante a gestão de Roberto Campos Neto, período em que o órgão regulador teria recebido ao menos 38 comunicações formais apontando possíveis irregularidades no modelo de negócios da instituição financeira.
As denúncias indicavam riscos relacionados, principalmente, ao padrão agressivo de captação de recursos, com oferta de produtos financeiros que prometiam rentabilidade acima da média do mercado. Ainda assim, segundo informações que agora serão analisadas pelos auditores, o banco continuou autorizado a captar recursos por um período prolongado, o que ampliou sua exposição e o número de investidores afetados.
A inspeção busca esclarecer por que esses alertas não resultaram em medidas mais rígidas em tempo oportuno. Técnicos do Tribunal de Contas da União irão reconstituir a cronologia das decisões do Banco Central, avaliando se houve omissão, demora excessiva ou confiança indevida em ajustes prometidos pela direção do banco supervisionado.
Outro ponto que será examinado é se o Banco Central adotou uma estratégia de acompanhamento gradual, apostando na correção interna das falhas apontadas, em vez de intervir preventivamente. Essa abordagem, embora prevista em protocolos de supervisão, pode ter permitido a continuidade de práticas consideradas de alto risco, especialmente em um contexto de captação intensiva junto ao público.
A atuação da autarquia reguladora também será analisada à luz de possíveis alternativas à liquidação, como negociações para venda da instituição ou reorganização assistida. O objetivo é compreender se todas as opções disponíveis foram consideradas antes da decisão final e se a supervisão anterior foi compatível com o volume e a gravidade das denúncias recebidas.
Ao final da inspeção, os auditores deverão produzir um relatório técnico que servirá de base para deliberação no TCU. Embora o tribunal não tenha poder para reverter a liquidação do Banco Master, o resultado pode apontar responsabilidades administrativas e recomendar mudanças nos procedimentos de fiscalização do sistema financeiro.
O caso reacende o debate sobre os limites da autonomia do Banco Central, a transparência dos processos de supervisão e o dever de resposta diante de alertas reiterados sobre riscos ao mercado e aos investidores.
A autorização para a compra do então banco Máxima por Daniel Vorcaro foi concedida em outubro de 2019. Entre o fim de 2019 e 2024, o Master saltou de R$ 3,7 bilhões para R$ 82 bilhões em ativos. “Em menos de quatro anos, o Master se tornou a 25ª maior instituição financeira do Brasil, em junho de 2024, quando era a 77ª em 2021”, apontou a Moody’s.
A Polícia Federal investiga se esse crescimento ocorreu de forma desordenada e criminosa, no âmbito da Operação Compliance Zero, após a venda de carteiras falsas ao BRB, considerada um “crime novo” ocorrido em janeiro de 2025.
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