Sexta-feira, 28 de janeiro de 2022
| Centro de testagem para covid-19 em Paris, em março de 2021 |
Sob o sistema de saúde universal da França, todos os pacientes com COVID-19 que acabam em terapia intensiva têm cobertura total para seu tratamento, que custa cerca de 3.000 euros (US$ 3.340) por dia e normalmente dura de uma semana a 10 dias.
"Quando medicamentos gratuitos e eficientes estão disponíveis, as pessoas deveriam poder renunciar a eles sem consequências... enquanto lutamos para cuidar de outros pacientes?" O chefe do sistema de hospitais AP-HP de Paris, Martin Hirsch, disse à televisão francesa na quarta-feira.
Hirsch disse que levantou a questão porque os custos de saúde estão explodindo e que o comportamento irresponsável de alguns não deve comprometer a disponibilidade do sistema para todos os outros.
Vários profissionais de saúde franceses rejeitaram sua proposta, políticos de extrema-direita pediram a demissão de Hirsch e a prefeita de Paris, Anne Hidalgo - que preside o conselho da AP-HP e que é a candidata socialista nas eleições presidenciais de abril - disse discordar de sua proposta.
Uma hashtag pedindo a demissão de Hirsch estava em alta no Twitter na França.
O ministro da Saúde, Olivier Veran, não comentou a ligação de Hirsch, mas Olga Givernet, legisladora do partido LREM do presidente Emmanuel Macron, disse na BFM TV na quinta-feira que "a questão levantada pela comunidade médica não pode ser ignorada".
Testes de covid passam a ser cobrados de pessoas que não se vacinaram
Na França, os não vacinados passaram a ouvir com frequência uma nova frase desde a última sexta-feira (15). "A partir de hoje é pago". Nas farmácias do país, os ainda relutantes à vacinação contra a covid-19 devem pagar até 44 euros (R$ 277) por um teste que abre brevemente as portas da vida social.
— Algumas pessoas pediram para fazer o teste, mas quando explicamos que, sem a receita do médico, não são mais subsidiadas, foram embora — conta à agência de notícias AFP Aminata, funcionária de uma farmácia do subúrbio de Paris.
Dos clientes que perguntaram, somente uma decidiu pagar os 25 euros (R$157) de um teste de antígenos para as pessoas não vacinadas. Se o resultado negativo, o exame vale como um passaporte sanitário durante três dias.
— Nas sextas-feiras, geralmente há fila na porta, mas hoje não tem ninguém — constata Aminata.
A medida representa um custo adicional para os quase sete milhões de adultos que não tomaram nenhuma dose da vacina, ou não completaram o esquema vacinal na França, caso desejem frequentar bares, restaurantes, cinemas, ou academias.
Apenas duas pessoas pagaram pelo teste durante a manhã na farmácia de Claire, diante do parque de Buttes-Chaumont, ao nordeste de Paris. Muitos franceses correram para fazer o teste na quinta-feira (14), último dia em que era disponibilizado gratuitamente.
— Conversando com eles, garantem que estão pensando em tomar a vacina, pois, em caso contrário, dizem que não poderão fazer mais nada — diz Claire, para quem a resistência de alguns é provocada pela rejeição à ideia de uma imunização obrigatória.
Na França — exceto para profissionais médicos e de atenção à saúde — a vacinação contra a covid, possível a partir dos 12 anos, não é obrigatória. Mesmo assim, a implantação do passaporte sanitário transforma-a, segundo os críticos, em quase forçada.
Está vacinado? Então é gratuito
— Tenho amigos que falam: 'Fizeram tudo isso para nos obrigar a tomar a vacina' — diz Jean-Pierre, em outra farmácia, onde pergunta se, para os vacinados, os exames são subsidiados.
— Sim, são gratuitos — respondem, para sua alegria.
Na entrada de um laboratório na mesma avenida, Yannis tira as dúvidas de um homem que deseja viajar para a Argélia e precisa do resultado de um teste PCR, que custa 44 euros (R$ 277).
— Você está vacinado? Então é gratuito — informa.
O local fez 30 testes nesta sexta-feira, contra 50 a 60 em média. Yannis afirma que, com o fim do verão (hemisfério norte), a situação está mais calma, pois "muitos PCR são para viagens".
A França seguiu os passos da Alemanha, que acabou com a gratuidade dos testes na segunda-feira (11), e da Espanha, onde os exames de antígenos, sem receita, custam entre 25 e 50 euros (R$157 - 315), e os de PCR, entre 60 e 180 euros (R$ 378 - 1.136).
Na Europa, Áustria e Dinamarca estão entre os poucos países que ainda mantêm a gratuidade.
Na França, o custo dos testes gratuitos para os cofres públicos foi de 2,2 bilhões de euros (R$ 13 bilhões) em 2020. O valor projetado para 2021 é de 6,2 bilhões de euros (R$ 39,1 bilhões).
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