Sábado, 22 de junho de 2019
A cobrança por bagagem e por assento nos voos, além da crise econômica, leva muitos brasileiros a trocar os aeroportos pelas rodoviárias. De janeiro a maio deste ano, o volume de passageiros que encararam a estrada de ônibus em viagens interestaduais aumentou 12% ante igual período do ano passado, segundo a Associação Brasileira das Empresas de Transporte Terrestre de Passageiros (Abrati).
A destaca que "nos primeiros quatro meses de 2019, o número de pessoas que cruzaram as divisas entre os estados brasileiros a bordo de avião cresceu 2,95%, segundo a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Os dados de maio para bilhetes aéreos ainda não estão disponíveis."
A matéria ainda acrescenta que "o movimento pode ser um indício de consolidação de uma tendência verificada no ano passado, quando o ritmo de crescimento do transporte de passageiros sobre rodas superou o feito com asas. Desde 2010, quando o número de pessoas transportadas por avião ultrapassou o das que viajavam de ônibus pela primeira vez no país, a procura pelas estradas vinha caindo — a exceção foi o ano de 2012, quando houve uma leve alta."
Areportagem do jornal O Globo
A crise da Avianca — que ajudou a elevar o preço das passagens aéreas — e a polêmica em torno da cobrança por bagagem e por assento nos voos, além da crise econômica, têm levado muitos brasileiros a trocar os aeroportos pelas rodoviárias. De janeiro a maio deste ano, o número de passageiros que encararam a estrada de ônibus em viagens interestaduais aumentou 12% ante igual período do ano passado, segundo a Associação Brasileira das Empresas de Transporte Terrestre de Passageiros (Abrati).
Nos primeiros quatro meses de 2019, o número de pessoas que cruzaram as divisas entre os estados brasileiros a bordo de avião cresceu 2,95%, segundo a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Os dados de maio para bilhetes aéreos ainda não estão disponíveis.
O movimento pode ser um indício de consolidação de uma tendência verificada no ano passado, quando o ritmo de crescimento do transporte de passageiros sobre rodas superou o feito com asas. Desde 2010, quando o número de pessoas transportadas por avião ultrapassou o das que viajavam de ônibus pela primeira vez no país, a procura pelas estradas vinha caindo — a exceção foi o ano de 2012, quando houve uma leve alta.
Mas o modal rodoviário ainda está longe de desbancar o aeroviário quando se trata de passageiros. A quantidade de pessoas que se sentaram na poltrona do ônibus (41,8 milhões) foi menos da metade das que optaram pela do avião no ano passado (86,2 milhões).
— Com menos opções e preços mais altos, a migração (do avião para o ônibus) é inevitável. Muitas pessoas estão evitando andar de avião. Vivemos uma crise do setor aéreo no país, o que traz impactos para toda a economia. O crescimento do transporte rodoviário só não é maior porque as distâncias são muito grandes —explica Ulysses Reis, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) e sócio da consultoria Inovação em Varejo, que atribui o aumento na procura pelo ônibus ao vazio das rotas operadas pela Avianca, ao alto valor dos bilhetes aéreos e à cobrança por bagagem e outros serviços, como marcação de assento.
Criação de novas rotas
A demanda por passagens de ônibus vem crescendo tanto que algumas empresas têm inaugurado novas rotas ou aumentado a frequência nos trajetos mais procurados. O fenômeno vem ocorrendo especialmente em trechos em que os voos da Avianca se destacavam, como as conexões entre Rio e Brasília — a companhia aérea entrou em recuperação em dezembro e teve sua operação suspensa em 24 de maio.
— Nesses cinco meses (de 2019), o setor (rodoviário) está observando um grande aumento na demanda, sobretudo nos trechos operados pela Avianca — afirma Letícia Pineschi Kitagawa, conselheira da Abrati e diretora de Marketing e Relações Institucionais da Viação Util. — Só abrimos uma linha quando realmente há uma forte demanda. Por isso, abrimos um eixo do Rio para Brasília pela parte da manhã. Temos percebido que Brasília tem se tornado um hub para o Nordeste.
Segundo ela, a Util inaugurou uma terceira viagem diária no eixo Rio-Brasília, de 18 horas de duração. Letícia destaca ainda que estuda aumentar a oferta regular entre Rio e São Paulo. Mas a conselheira da Abrati diz que houve aumento na demanda por viagens em todo o país, como no trecho entre Juazeiro do Norte e Fortaleza, Salvador-João Pessoa, além de Rio-Vitória e Rio-São Paulo.
— Temos notado que muitos passageiros, que não estavam habituados com o ônibus, se surpreendem com as melhorias que foram feitas, como poltronas mais confortáveis e capacidade para transportar bagagem — diz Letícia.
De olho no maior número de negócios, o Grupo JCA, que responde pelas viações Cometa, Catarinense e 1001, lançou sete opções de rotas, com novos trajetos que incluem os aeroportos do Rio (RIOgaleão), São Paulo (Guarulhos e Congonhas) e Paraná (Afonso Pena). A empresa, que conta com mais de dois mil veículos, planeja neste ano aumentar ainda mais esse número.
Ônibus fretado
As empresas também vêm diversificando a oferta de serviço: é possível até fretar ônibus por meio de aplicativos, como faz a Buser.
— Por mês, crescemos 30%, e por dia temos cerca de 10 mil novos cadastros. Há um nítido aumento da procura pelo serviço. Tive a ideia de criar a empresa na época em que me casei, ao escolher fretar um ônibus para levar os convidados para a cerimônia na Bahia. Percebi que financeiramente era a melhor alternativa — conta o engenheiro Marcelo Abritta, fundador da Buser.
Acostumada a percorrer distâncias maiores para visitar a família, a soteropolitana Ix Chel Barbosa, de 22 anos, recebeu de última hora a confirmação para apresentar um artigo em um congresso universitário no Espírito Santo, marcado para a primeira semana deste mês. Ela, que sempre optava pelo avião, foi para a capital capixaba de ônibus usando o aplicativo da Buser.
— Tive cerca de uma semana para programar minha viagem. Estava em cima da hora, e as passagens de ida e volta de avião triplicaram de preço. Moro no Rio há quatro anos, e pela primeira vou a Salvador de ônibus para visitar a família. É uma viagem longa, mas durante o tempo de estrada dá para ler um livro — conta a universitária.
'Democracia em Vertigem' expõe com precisão as feridas do golpe de 2016
Da Rede Brasil Atual – Vasta documentação histórica aliada às portas abertas do Palácio da Alvorada compõem o documentário Democracia em Vertigem, da cineasta Petra Costa. O longa chegou nesta semana ao catálogo da Netflix para deixar mais um registro definitivo sobre o atual contexto político brasileiro. Petra conta com sensibilidade pontos essenciais da história recente que levaram o país a um processo de golpe (contra Dilma Rousseff, em 2016) que levou à ascensão da extrema-direita – com a ajuda da classe média alta do país, na qual a diretora se inclui em sua narrativa.
Democracia em Vertigem entra para o panteão daqueles que se dedicam a contar a história do país, ao lado de extensa produção literária e mesmo audiovisual, como a obra par O Processo (2018), da documentarista Maria Augusta Ramos. Estão ali, explícitos para o público, momentos históricos como a conversa do então senador Romero Jucá (MDB-RR) com o ex-presidente da estatal Transpetro Sergio Machado: “A solução é botar o Michel (…) Num grande acordo nacional, com o Supremo e com tudo”. Petra faz questão de repetir a fala, como que em um desabafo particular, indignada.
O grande seriado de drama, com toques de terror (tudo muito bem televisionado, espetacularizado), que se transformou a política nacional, explode em seu mais novo capítulo com o escândalo da “Vaza Jato“. Mesmo não entrando no documentário, os fatos se conversam. No documentário, Petra apresenta a forma como a Justiça, por intermédio da Operação Lava Jato, com os procuradores do Ministério Público de Curitiba e o então juiz Sergio Moro, tratou o processo contra o ex-presidente Lula.
Provas? Não foram necessárias. Bastaram convicções e um conluio entre juiz e promotores com a finalidade de prender Lula para impedi-lo de concorrer às eleições do ano passado. Foi a continuidade do golpe. “Qual o sentido de tirarem a Dilma se eu voltar?”, questiona o ex-presidente.
“A história foi ficando cada vez mais surreal, com pontos de virada inimagináveis”, disse a cineasta em evento de lançamento do documentário em São Paulo, na quarta-feira (19). “As viradas continuam”, afirmou, em referência aos novos fatos que comprovam a relação promíscua entre Moro e procuradores (vazamento de diálogos pelo The Intercept Brasil). Durante o lançamento, Petra foi questionada, inclusive, se seria cabível a produção de uma continuação do longa. E encarou a possibilidade com bom humor, sem sentenciar sim nem não.
Reações
Petra tem 35 anos, praticamente a mesma idade da democracia brasileira após o fim da ditadura civil-militar (1964-1985), como observa no filme. Aos 28 anos, filmou ELENA (2012), que ganhou prêmios de Melhor Documentário pelo Júri Popular, Melhor Direção, Montagem e Direção de Arte no Festival de Brasília. O documentário se impôs a Petra como um meio de enfrentamento à dor da morte da irmã. Segundo ela, uma dor tão forte quanto a vivida nos dias atuais, ante o sangramento da utopia democrática – um roteiro que também se obrigou a contar.
A mensagem de Democracia em Vertigem é clara: tão jovem democracia em tão grave risco. Não foram poucos os relatos de expectadores que caíram nas lágrimas durante o longa. “Fiquei muito emocionado. Chorei pouco, não como ela”, disse o músico Caetano Veloso, que assistiu em sua casa, ao lado da apresentadora e atriz Mônica Iozzi, que ficou muito abalada. “É difícil não chorar nada. Tem a perspectiva dela e a histórica, tem os pais dela. A série de coisas é muito nítida a feição dessa história”, completou Caetano.
O ponto de vista da cineasta é muito presente na obra. Inclusive a crítica frequentemente cobrada do PT, de ter – apesar de ter realizado gestões inclusivas e que levaram a uma taxa elevada de aprovação de Lula, acima de 80% –, falhado no plano ético ao sucumbir aos antigos mecanismos de financiamento de campanhas.
Narrado em primeira pessoa, o documentário trata da família de Petra. Seu avô, empreiteiro fundador da Andrade Gutierrez. Seus pais, ativistas comunistas perseguidos pela ditadura. Uma família de contrastes. Em um desabafo, ela lamenta que parte de seus familiares apoiaram o presidente de extrema-direita, Jair Bolsonaro (PSL) – que não esconde seu desejo de que gente como os pais de Petra estivesse mortos após tortura, simplesmente por pensar de outra forma.
Um dos pontos de virada mais importantes da linha narrativa, como não poderia ser diferente, é a votação da aceitação do impeachment na Câmara dos Deputados, em abril de 2016, quando os deputados votaram por Deus, pela família, pela avó, por estradas, por igrejas, contra Dilma. Sobre o porquê da cassação de seu mandato? Nada. Apenas a oposição desesperada com o absurdo. O maior deles veio justamente com Bolsonaro. Deputado federal à época, dedicou seu voto ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, torturador militar reconhecido pela Justiça, inclusive de Dilma Rousseff, quando ela era uma jovem ativista.
Perplexo, o ex-deputado Jean Wyllys (Psol-RJ) – que atualmente está exilado, após ameaças contra sua vida vindas de grupos bolsonaristas – falou em suas redes sociais sobre o documentário. “É impressionante como a Petra conseguiu traçar um elo entre nosso passado recente e nosso passado mais distante. E mostrar o que restou do passado distante de mais infeccioso, a ponto de infectar nossa democracia. Petra se implica na história, conta uma história que é dela e também nossa. Eu, envolvido nos fatos, ao vê-los de fora do país, me doeu muito”, disse.
Muitos outros pontos históricos estão lá: a resistência de Lula no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC antes da prisão; a morte de sua companheira, Marisa Letícia; o isolamento de Temer no governo Dilma, sua articulação golpista, entre outros.
Na segunda-feira (24) o longa será exibido na Casa do Baixo Augusta, no centro da capital, com posterior debate com Petra, a partir das 19h.
Colaborou Cláudia Motta
Leia também


Nenhum comentário:
Postar um comentário